Sobre Arte, Cultura e Viagem: Argentina (parte 1)

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por Atos Ribeiro

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– Geralmente, percebemos que o mal que o mundo nos faz é culpa do mundo; mas, se pensarmos bem, não necessariamente o mundo é quem nos escraviza – quem nos escraviza somos nós mesmos -, tendo em vista que, mudando os padrões, as rotinas, o seu redor, ainda sendo quem você é, não te deixa mais ou menos livre de si: você passa a ter problemas com o que quer que seja, independente de onde esteja, porque as emoções que carrega, os desejos, existindo, não te satisfazem, ou, ainda, não te deixa se satisfazer consigo mesmo perante a realidade exterior que elege viver – porque sempre vai sentir que falta algo. –

A próxima cidade que nos deparamos, depois de uma viagem de bus, foi El Bolsón, e é aqui que iremos discorrer sobre o assunto.

El Bolsón é uma cidade mística. Em sua cultura, a presença da lenda sobre os doendes se faz entendível quando se desfruta de sua beleza. A cidade fica em um vale, é cercada por bosques, e tem uma beleza e uma calma que todo aquele que sente energias pode entender a riqueza de lugares como este.

A primeira coisa que me surpreendeu era a quantidade de mochileiros que havia, além de ciclo-viajantes que não paravam de chegar; a cidade estava repleta de estrangeiros, o ar natural das montanhas se acercava a todo momento, e nós, pela primeira vez, nos sentimos em casa. Chegamos em Bolsón para ficar por três noites mais ou menos, mas foi impossível sair daquela cidade com tamanha pressa – passamos umas quatro semanas, e essa semanas se passaram voando.

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Eu estava apaixonado. Nos deparamos com a Arte de Rua. Eu nunca vi em minha vida um contato tão verdadeiro com arte, com essa proximidade, com esse favorecimento… Eu estava em meu melhor momento interno, e todo aquele lugar me compreendia como se sempre estivéssemos juntos. Foi amor à primeira vista.

A forma como ela se manifesta, e como a cultura de um lugar pode alimentar ou degradar algo tão íntimo do sentimento humano; cada expressão sugeria realidade, mesmo sabendo que a Arte é imitação da Vida. A manifestação de conceitos, teorias, em simples ações que suportavam toda a energia carregada por nós mesmos durante o passado até esse momento. Expressada através das ferramentas possíveis que cada um, por intermédio daquilo que possui em si, desperto, toda a expressão artística tocava com a alma que as alimenta, e percebi o quão diferente tudo aquilo foi em relação a tudo o que vivi no Brasil. O desenvolvimento da cultura, os apoios, a motivação, a organização, o anseio, e, ainda, a vontade de chegar ao interlocutor, àquele que se prestava a ouvir e desfrutar o que ali era expressado.

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Arte de Rua deixou de ser conceito. Conheci várias pessoas em Bolsón que carregam consigo a história do movimento e transformaram a realidade da arte no cotidiano da gente.

Primeiramente, pra quem não conhece Bolsón, na praça central existe, por três dias da semana (terça, quinta e sábado), uma feira – lotada – de artesanato. Alguns artesãos que conheci em Puerto Madryn, costa argentina, estavam lá. Outros muitos artesão conhecemos no camping que ficamos – Los Álamos del Bolsón -, onde pudemos também conhecer o pouco da história de cada um e participar de suas atividades cotidianas, a produção e suas histórias.

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Eu, particularmente, me impressionei com a facilidade que tinham de se dedicarem a seu trabalho, não pela necessidade ou por qualquer outra coisa, pela liberdade que têm de se moverem como e quando querem, por viverem de forma mais livre e de cuidarem de si e de suas famílias através de seu trabalho. Nesse momento, entendi que me dedicar a mim mesmo não necessariamente quer dizer  viver preso em um escritório ou em cima de uma bicicleta. Liberdade não significa não estar preso a circunstâncias ou à falta delas, mas, sim, estar se dedicando àquilo que mais gosta de realizar, independente do que te motive, àquilo que te dá o ânimo para seguir trabalhando em prol de si mesmo – porque sobreviver não implica dizer que estou vivo. Ou seja, Liberdade seria, em suma, trabalhar em si para desenvolver suas ferramentas internas que te permitem expressar-se de maneira mais autêntica com o que há de essencial em você, ao invés de afastar-se daquilo que aparenta te prender ou te fazer mal – pois, como a vida não é definida por isso ou por aquilo, ela te promove ferramentas diversas para o que você viva seja a parte essencial que existe em você (que é, olha só, é você mesmo).

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Segundamente, por exercer a profissão que lhes faz se sentir bem, independente do que os impulsione, é, de fato, o ânimo que todos queremos pra vida que temos, pra seguir o nosso curso, a nossa estrada. Em cada artesão que me deparei, que troquei ideia, que compartilhei histórias, eu vi a sinceridade fraternal que, mesmo que nunca mais a presencie, eu sei que sempre  pude contar. Foram nossos principais apoiadores, os artesãos, nesse sentido, por saberem que a vida de estrada nem sempre é fácil, e que exige de nós uma coragem e determinação sem igual. O alvo principal de cada um deles se torna não mais a luta pelo conforto e pelo dinheiro, mas viver mais tranquilamente de acordo com seus anseios internos. Isso, claro, em resposta ao comodismo social, que prefere dinheiro à vida, ou ao exercício de um trabalho “comum” à disposição de aproveitar por conta própria as ferramentas que temos. O que mais aprendi convivendo com eles foi o instinto fraterno que todos carregamos aqui dentro e que fortalece os nossos olhos àquilo que vemos.